Será que a yoga pode te preparar para enfrentar o caminho inca?

Eu quis treinar e preparar-me para enfrentar o caminho inca. Era o sonho de infância do meu filho e eu não queria decepcioná-lo. Mas, com os inúmeros afazeres que tinha como, dar aula de yoga, construir minha casa, acordar às 5 da manhã para levar meu filho para a escola e ainda uma bebê, não dava nem para pensar na possibilidade de preparar-me para uma trilha. 

 

Assim, no final, me deparei com um dilema: Será que a yoga que pratico diariamente me prepararia para enfrentar os  42 quilômetros esgotantes do caminho Inca? É importante lembrar que a prática de yoga a que me refiro neste artigo é composta de um treino diário, seis dias semanais, no estilo 'Ashtanga'.  Eu estudei yoga neste estilo por dois anos antes da minha viagem. 

Para quem não sabe o que é o estilo 'Ashtanga', ela é uma prática de yoga árdua desenvolvida por Sri K. Pattabhi Jois, baseada em um antigo texto chamado 'Yoga Kornuta'. É composta de 6 séries que são introduzidas ao aluno pouco a pouco, somente após o aluno tornar-se proficiente nas poses iniciais. Quando eu fui à trilha inca, eu estava praticando a série primária de 'Ashtanga Yoga'.

Então, voltando à minha pergunta inicial: Será que a 'Ashtanga Yoga' poderia me preparar para fazer o caminho inca? Aqui segue o meu dia-a-dia explicando as maneiras pelas quais minha prática diária preparou meu corpo para a trilha.

Dia 1: Como fizemos esta viagem durante um feriado de uma semana que meu filho teve da escola, só tivemos um dia em Cusco para nos aclimatarmos. Essa foi uma idéia terrível e tornou a caminhada ainda mais difícil. Eu subestimei meu processo de aclimatação achando que não encontraria dificuldades pelo fato de já ter ido esquiar no Colorado, um lugar alto, e nunca ter tido problema. Acontece que Cusco é mais alto que o Colorado e essa pequena diferença afetou muito o meu corpo. Mesmo o primeiro dia começando com um terreno mais fácil, foi, para mim, de longe o mais difícil de todos por causa do ar rarefeito. Muitas vezes eu me senti sem ar durante a caminhada, e tive que concentrar na minha respiração. Instintivamente, copiando minha prática de yoga, eu comecei a inspirar profundamente e a exalar todo o ar para que eu pudesse trazer novo oxigênio. Este pequeno exercício de respiração me ajudou conseguir terminar a caminhada daquele dia. Depois de ver lugares lindíssimos no primeiro dia de caminhada e experimentar Chicha (cerveja de milho) pela primeira vez, dormimos perto da casa de um morador local com o céu mais estrelado que eu já tinha visto.


Dia 2: Se você estiver fazendo o caminho Inca clássico, o segundo dia é supostamente o dia mais difícil. São 7 horas de subida nos Andes até a passagem da mulher morta. Essa subida é seguida de 1 hora de descida até o acampamento. Apesar de ser o dia mais difícil, o meu corpo começou a aclimatar então eu só senti uma leve dor de cabeça ao atingir a passagem da mulher morta (o ponto mais alto daquele dia). Eu acho que a minha prática de 'pranayama' (exercícios respiratórios) do dia anterior aumentou a quantidade de oxigênio no meu sangue ajudando a atenuar os efeitos da altitude. Assim que passamos pela passagem da mulher morta, uma chuva torrencial começou. Isso coincidiu com o início da parte em declive do dia. Ou seja, eu escorreguei nas pedras e caí umas 3 ou 4 vezes. Graças à minha flexibilidade, a qual ganhei com a prática diária da ashtanga, as quedas não me causaram quaisquer danos. A noite, nós acampamos e tivemos um contratempo. Eu acordei com um cara quase em cima de mim mexendo nas nossas coisas. Eu comecei a gritar muito alto. Acordei o meu filho e as pessoas nas barracas que estavam conosco. O homem fugiu. Meu filho e eu ficamos agitados o resto da noite e não conseguíamos dormir. Tentando acalmá-lo, eu lhe ensinei o 'Vishama-vritti', ou respiração desigual. Depois fizemos uma meditação curta. Sei que ele acabou dormindo como um bebê. Foi como mágica. Eu tentei fazer o mesmo, mas só consegui dormir um pouquinho. O medo era muito grande de algo mais acontecer.

Dia 3: No terceiro dia, todo mundo estava reclamando de dores no corpo. No entanto, eu estava me sentindo ótima, apesar de não ter dormido bem na noite anterior. Normalmente, nossos músculos ficam doloridos quando são desafiados com uma atividade mais extenuante do que estão acostumados. Creio que a minha prática de yoga preparou os meus músculos para enfrentar os 42km sem sentir dores musculares. Apesar de tentarmos manter a calma e ficar mais uma noite com o nosso grupo, eu e meu filho decidimos caminhar os 20 km restantes da trilha no mesmo dia para ficarmos num hotel ao invés de um acampamento. Ou seja, com isso tivemos que fazer mais 6 horas de caminhada em declive, colocando nossos joelhos à prova. No final do dia, Gabriel e eu estávamos super cansados. No entanto, ficamos felizes pois tínhamos conseguido chegar na 'civilização' e passar a noite com segurança. No final das contas, caminhamos o caminho inca inteiro em apenas 3 dias! Terminamos o dia com uma massagem peruana incrível e uma ducha quente!


Dia 4: No dia seguinte, tomamos um ônibus para Machu Pichu para encontrar nosso grupo que tinha caminhado para lá naquela manhã. Machu Picchu foi uma dos lugares mais incríveis e mágicos que eu já tinha visto. Depois de explorar o local, meu filho e eu apenas nos sentamos, fechamos os olhos e imaginamos como deve ter sido viver no ápice da civilização inca.

Veredito final: A minha prática diária de ioga no estilo da Ashtanga preparou o meu corpo para mais do que apenas enfrentar fisicamente a trilha inca. Ela também me deu habilidades para lidar com os desafios e problemas que encontrei. Eu utilizei técnicas de pranayama para me habituar com a altitude e me ajudar a manter a calma no meio do caos. Mesmo sem treinamento cardiovascular formal, tive a resistência e a aptidão necessárias para concluir os 42 km em 3 dias (um dia a menos do que o normal). Meus músculos não ficaram doloridos, apesar enfrentar 7 horas de subida em um mesmo dia. Sempre ouvi dizer que a Ashtanga é também um exercício cardiovascular, mas confesso que fiquei extremamente surpresa em como ela preparou o meu corpo para enfrentar uma tarefa tão árdua. Depois de usar o pranayama, meditação e resistência muscular na trilha posso atestar que 6 dias semanais de ashtanga preparam você para o desafio do caminho inca